Lina Bo Bardi e Edmar de Almeida no Sesc Pompeia: Baraúna, São Paulo, Brasil
". Repletos de interesses em comum, sempre atentos às culturas regionais do Brasil, os dois rapidamente se aproximaram. Edmar convidou Lina à sua cidade, Uberlândia (MG), onde apresentou-a ao trabalho tradicional das tecedeiras do Triângulo Mineiro, e a partir daí conceberam juntos (com colaboração de Flávio Império) a exposição Repassos, realizada no Museu de Arte de São Paulo (MASP) em 1975. A relação se intensificou no ano seguinte, quando Edmar articulou com frades franciscanos o convite para que Lina projetasse a Igreja Espírito Santo do Cerrado, em Uberlândia, trabalho no qual ela iniciou sua longa colaboração com os arquitetos - estudantes à época – André Vainer e Marcelo Ferraz."
Foi em meados dos anos 1970, ainda durante a ditadura civil-militar, que a arquiteta Lina Bo Bardi (1914-1992) e o artista Edmar de Almeida (1944-2025) se conheceram. Repletos de interesses em comum, sempre atentos às culturas regionais do Brasil, os dois rapidamente se aproximaram. Edmar convidou Lina à sua cidade, Uberlândia (MG), onde apresentou-a ao trabalho tradicional das tecedeiras do Triângulo Mineiro, e a partir daí conceberam juntos (com colaboração de Flávio Império) a exposição Repassos, realizada no Museu de Arte de São Paulo (MASP) em 1975. A relação se intensificou no ano seguinte, quando Edmar articulou com frades franciscanos o convite para que Lina projetasse a Igreja Espírito Santo do Cerrado, em Uberlândia, trabalho no qual ela iniciou sua longa colaboração com os arquitetos - estudantes à época – André Vainer e Marcelo Ferraz. Essas histórias aqui resumidas são um prelúdio do trabalho seguinte de Lina, um dos mais marcantes e maduros de sua carreira: a construção do Sesc Pompeia, amplo centro de lazer e cultura de uso democrático e popular, localizado onde antes havia uma fábrica abandonada no bairro da Pompeia, em São Paulo. Realizado entre 1977 e 1986 - também com a colaboração de Vainer e Ferraz e com tapeçarias de Edmar -, este projeto, que sintetiza muito do pensamento arquitetônico e político da arquiteta, é a base da exposição Lina, Edmar e o Sesc Pompeia.
Segundo André Vainer, “Um encontro profícuo de um artista com profunda fé cristã e uma comunista agnóstica, que em parceria realizaram belas obras, imbuídas do mais agudo afeto humanista”. Os móveis foram criados especialmente para o centro de convivência paulistano, pensados para as necessidades específicas de seus usuários - um tipo de prática comum aos projetos da arquiteta. Articulados aos espaços (teatro, restaurante, área expositiva etc.) e às funções do Sesc Pompeia, eles explicitam a visão de Lina na qual um projeto deve ser pensado como um todo: do micro ao macro; da placa de sinalização às grandes estruturas dos edifícios. Para ela, tudo isso era Arquitetura.
Do mesmo modo, pode-se dizer que as tapeçarias criadas por Edmar à convite de Lina para a choperia do Sesc - local hoje chamado de “comedoria”, que concilia restaurante e estrutura para shows - são também parte desta arquitetura. Pois, para além de seus jogos de cores e texturas, de seu impacto visual e beleza estética, as peças cobrem a longa parede cega ao fundo do espaço, de divisa com os vizinhos, e cumprem um papel acústico fundamental na absorção do som durante os shows. Vale lembrar que Edmar foi um artista multifacetado, com uma vasta produção para muito além do universo têxtil, mas que teve de fato um reconhecimento especial com sua produção de tapeçarias em grande escala, geralmente concebidas para espaços arquitetônicos públicos, com impacto direto na vida das pessoas.
A preocupação social de Edmar, compartilhada por Lina, fez com que a arquiteta o convidasse também para ajudar a idealizar os ateliês do Sesc Pompeia, em mais uma colaboração do artista no projeto. Ambos compartilhavam, ainda, o interesse pelo conhecimento tradicional, pelas práticas ancestrais e pelas especificidades culturais de cada região do país, coisas que vinham (e seguem) se perdendo com a massificação cultural. O desejo que tinham de valorizar e transmitir estes conhecimentos - em exposições como a já citada Repassos e tantas outras organizadas por Lina - não significava uma visão conservadora que negasse transformações e avanços tecnológicos, muito menos a folclorização da carência e da pobreza, mas sim o reconhecimento da riqueza cultural de cada povo e de suas práticas - por vezes extremamente sofisticadas. Como escreveu Lina: “É um contrassenso se pensar numa linguagem comum aos povos se cada um não aprofunda suas raízes, que são diferentes. A realidade à beira do São Francisco não é a mesma que à beira do Tietê”.
O fato é que Edmar esteve presente, ao longo dos nove anos de feitura do Sesc Pompeia, em diversos momentos, também como um interlocutor da arquiteta na busca pela criação de um espaço verdadeiramente livre e democrático. “Lina encomendou ao Edmar velários que foram apoiados nas estruturas de concreto da choperia, e cuja referência foram os tradicionais kakemonos japoneses, para alegrar e fazer um contraponto com as rígidas geométricas estruturas do galpão industrial cru. Infelizmente estas peças se perderam ao longo dos anos”, conta Vainer.
Os Bordados, de Mira Schendel (1919-1988), criam um diálogo particular com as tapeçarias de Edmar, particularmente, e com os móveis de Lina. Uma das mais importantes artistas contemporâneas brasileiras da segunda metade do século 20, Schendel foi amiga e importante referência para Edmar, em uma relação estabelecida principalmente por meio do filósofo Vilém Flusser (1920-1991). Estudioso da comunicação humana, Flusser via na obra de ambos os artistas caminhos de interação e diálogo. No caso de Mira, isso se dava especialmente através das formas e signos; no de Edmar, no próprio ato de tecer, criando sentidos a partir da interconexão dos fios. Embora Mira tenha concebido e realizado a série dos “Bordados” no começo da década de 1960, muitos dos signos visuais e das escolhas cromáticas encontram ecos nas criações de Edmar e nos seus “Repassos”.
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Lina Bo BardiMesa Redonda SESC Pompeia, 1982/2026D 200 x A 77 cm -
Lina Bo BardiPoltrona SESC Pompeia, 1982/2026L 75 x A 80 x P 75 cm -
Lina Bo BardiSofá SESC Pompeia, 1982/2026L 120 x A 80 x P 100 cm -
Lina Bo BardiBanco Lareira SESC Pompeia, 1982 / 2023L* 200 x A 34 x P 30 cm
* Larguras disponíveis: 200 / 240 / 280
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Lina Bo BardiCadeira SESC Pompeia, 1982 / 2023L 40 x A 68 x P 52 cm
Assento: 48 cm -
Lina Bo BardiCaixotinho SESC Pompeia, 1982 / 2023L 60 x A 64 x P 60 cm
Assento: 34 cm -
Lina Bo BardiMesa SESC Pompeia, 1982 / 2023L 80 x A 77 x P 80 cm -
Edmar José de AlmeidaOs avessos reivindicam seus direitos, 2021L 286 x A 206 cm
