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Reunindo maquetes arquitetônicas, desenhos, móveis, esboços, fotografias históricas, vídeos e documentos de arquivo, a mostra traça de forma abrangente suas explorações multidimensionais na arquitetura, no design, na curadoria, na mídia impressa e na cultura pública. Em seu núcleo, a exposição revela a “poética da sobrevivência” de Lina — uma filosofia arquitetônica que busca gerar abundância a partir da escassez e descobrir poesia no cotidiano.

Reunindo maquetes arquitetônicas, desenhos, móveis, esboços, fotografias históricas, vídeos e documentos de arquivo, a mostra traça de forma abrangente suas explorações multidimensionais na arquitetura, no design, na curadoria, na mídia impressa e na cultura pública. Em seu núcleo, a exposição revela a “poética da sobrevivência” de Lina — uma filosofia arquitetônica que busca gerar abundância a partir da escassez e descobrir poesia no cotidiano. Com curadoria do historiador da arquitetura e vice-presidente do Conselho do Instituto Bardi, Renato Anelli, e projeto expográfico do OPEN Architecture, a exposição é um dos principais projetos do Ano da Cultura China–Brasil 2026.

 

Nascida em Roma, em 1914, Lina Bo Bardi viveu o início da Segunda Guerra Mundial pouco depois de concluir sua formação em arquitetura. Pouco tempo depois, seu escritório em Milão foi destruído por um bombardeio. Esse momento decisivo a levou a fazer da escrita uma ferramenta de combate, comprometendo-se com a arquitetura como forma de intervenção social. Colaborou com diversas revistas, foi vice-editora da Domus e fundou uma publicação de vanguarda. Em 1946, mudou-se para o Brasil, iniciando uma trajetória extraordinária como arquiteta em um país marcado por intensa vitalidade cultural.

 

Suas primeiras investigações ocorreram por meio do design de mobiliário, reinterpretando práticas locais, como o uso das redes de descanso e de materiais brasileiros, como tecidos, couro e madeira. Essa pesquisa culminou em seu primeiro projeto arquitetônico, a Casa de Vidro (1949–1952), residência do casal Bardi. Protegida por paredes transparentes de vidro, a casa parece flutuar entre as árvores plantadas pela própria Lina, estabelecendo uma simbiose poética entre o modernismo e a paisagem tropical brasileira. Posteriormente, no projeto do Museu de Arte de São Paulo (MASP) (1957–1968), Lina empregou um grande vão estrutural para liberar o térreo, transformando-o em uma ampla praça pública. 

 

Em sua fase mais madura, no projeto do SESC Pompeia (1976–1986), preservou as marcas históricas da antiga fábrica, abrindo grandes vãos semelhantes a cavernas no edifício esportivo e introduzindo um curso d'água sobre o piso de concreto da fábrica desativada. Com essas intervenções, revitalizou o antigo complexo industrial, permitindo que a vida cotidiana florescesse em meio ao concreto bruto e transformando o edifício em um verdadeiro palco para o encontro e a convivência pública.

 

Uma mudança decisiva no pensamento de Lina Bo Bardi ocorreu durante sua longa permanência na Bahia, entre 1959 e 1964. A partir de extensas pesquisas etnográficas, abandonou sua visão anterior da região como "atrasada" e, em 1963, organizou a histórica exposição “Nordeste”. A mostra revelou uma cultura singular, formada pelo entrelaçamento das tradições africanas, indígenas e coloniais — aquilo que Lina chamou de “Civilização da Sobrevivência”.

 

Caracterizada por uma extraordinária atenção ao cotidiano, essa cultura encontrava invenção nos objetos descartados: luminárias, utensílios domésticos, colchas, roupas, bules, brinquedos e inúmeros objetos comuns eram recriados de forma engenhosa a partir de materiais reaproveitados. Ao retornar à Bahia, em 1986, Lina realizou diversos projetos de restauração e requalificação no centro histórico, incluindo a transformação de antigas casas coloniais em moradias-ateliês destinadas aos artesãos que já atuavam na região.

 

Em 2021, a Bienal de Arquitetura de Veneza concedeu a Lina Bo Bardi o Leão de Ouro Especial pelo Conjunto da Obra, destacando que sua arquitetura "reúne arquitetura, natureza, vida e comunidade" e que, em suas mãos, "a arquitetura torna-se verdadeiramente uma arte social de encontro".

 

Por meio do projeto expográfico concebido pelo OPEN Architecture, as diversas práticas criativas, o universo intelectual e a trajetória de vida de Lina são apresentados como um organismo único. Um longo tecido semitransparente de linho percorre toda a galeria, organizando a exposição em nove núcleos sem perder a sensação de fluidez e espontaneidade. Esse tecido conecta desenhos, esboços, maquetes, fotografias e vídeos por diferentes formas de apresentação, estruturando nove seções distribuídas em quatro grandes eixos temáticos, com destaque para seus principais projetos de arquitetura, mobiliário, cenografia, arte popular e produção escrita.

 

Suspenso ao longo do espaço expositivo, o tecido funciona simultaneamente como superfície de projeção e como uma delicada "parede" para a apresentação das obras, criando uma experiência espacial baseada no diálogo entre leveza, transparência e luz. No átrio do primeiro pavimento da PSA, o OPEN Architecture recria especialmente a cena da piscina interna do SESC Pompéia, concebendo um ambiente aberto e acolhedor que convida o público à permanência, ao encontro e à interação. A instalação reafirma a convicção permanente de Lina de que o espaço público é um instrumento essencial para estimular a vida coletiva e a vitalidade sociocultural.

 

Como o mais recente capítulo da série "Architecture & City" da PSA, a exposição revisita o pensamento e a produção de Lina Bo Bardi. Desde sua criação, em 2014, a série aborda a arquitetura como prática social e expressão cultural, apresentando ao público chinês arquitetos e correntes teóricas de relevância internacional, ao mesmo tempo em que constrói, gradualmente, um panorama de diálogo arquitetônico entre diferentes regiões e gerações.

A inclusão de Lina Bo Bardi representa a primeira vez que a trajetória intelectual completa de uma arquiteta integra essa série, assim como a primeira vez em que o foco recai especificamente sobre a América do Sul — um território fértil onde a arquitetura moderna encontrou e dialogou profundamente com as culturas indígenas. Fundamentada no espírito da sobrevivência, a criatividade intensa e o humanismo sensível de Lina permanecem profundamente atuais, oferecendo uma reflexão crítica sobre um dos grandes desafios contemporâneos: como reconstruir a conexão profunda entre arquitetura e vida pública em um mundo marcado por rápidas transformações materiais e ambientais.

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