Um certo mundo caipira: Baraúna, São Paulo, Brasil
Seguindo a “tradição” recém-criada de apresentar em nosso novo espaço exposições sobre temas relacionados ao modo de projetar e produzir os móveis da Marcenaria Baraúna, escolhemos dessa vez o chamado “mundo caipira”. Resolvemos focar não nas relações sociais e culturais da grande Paulistânia, território onde frutificou a cultura caipira nos séculos XVIII e XIX, mas no mundinho da casa, do viver o dia a dia, na escala do corpo. E aqui chegamos ao objeto, ao mobiliário, tema que nos interessa.
A partir de uma breve pesquisa, fizemos um recorte do que encontramos à nossa volta e em nossas andanças e vizinhanças: objetos, fotografias, pinturas e bordados, que retratam o que ainda resiste desse mundo quase extinto. Um pouco do imaginário panorâmico e diverso contido nessas obras dialoga nesta pequena exposição com peças do mobiliário criado e produzido pela Marcenaria Baraúna ao longo de seus 40 anos de vida (1986).
A exposição é composta por obras de artistas consagrados e reconhecidos no mundo das artes plásticas. São eles Agostinho Batista de Freitas, José Antonio da Silva e Ranchinho com suas fantásticas pinturas que evocam o imaginário rural a partir do olhar já urbano, metropolitano até; Artur Pereira, GTO e Antonio Julião, com suas esculturas em madeira, executadas com maestria técnica, fantasia e surrealismo.
A mostra traz também algumas das fotografias que fiz em 1984 para a exposição “Caipiras, Capiaus: Pau a pique”, apresentada por Lina Bardi e Glaucia Amaral no Sesc Pompeia no mesmo ano e publicadas em 1992 no livro “Arquitetura rural na Serra da Mantiqueira”. Elas retratam a bela paisagem física e humana dessa região, tão procurada nos dias de atuais, e em forte processo de transformação.
Duas paisagens rurais de Madalena Fanucci, com seu traço bem definido e pessoal na tradicional técnica do bordado, ajudam a construir o ambiente da mostra, ou a estabelecer a “conversa” que se quer travar.
A grande novidade fica por conta do conjunto de peças de Alvino Ribeiro, artista popular apresentado pela primeira vez em uma exposição. Seu Alvino, como era conhecido, viveu na pequena cidade mineira de Dom Viçoso e faleceu na pandemia vitimado pela Covid. Foi um artífice que trabalhou a vida toda na produção de artesanato de estereótipos do mundo rural, como miniaturas de carro de boi, para serem revendidas nas tendas e lojas de São Lourenço.
Mas, nos intervalos do trabalho sob encomenda, Seu Alvino criava livremente sua arte, construía seu verdadeiro universo poético, com sobras de materiais – madeira, tinta, papel, galhos de árvores, frutos secos, arames e refugos industriais. Povoava seu ateliê, espécie de oficina do Gepetto, com os novos “personagens” inventados. Estes objetos que lhe faziam companhia podiam ser ora fielmente representados, como as cobras, que conhecia muito bem, ora surreais, imaginados, como aviões ou helicópteros que nunca vira de perto.
Muitos poderão perguntar: “Mas o que tudo isso tem a ver com a Baraúna, marcenaria que cria e produz móveis para a vida contemporânea?”
Em um tempo de consumo rápido e excessivo, de descarte irresponsável e desperdício de todo tipo, vale a pena olhar para este “certo mundo caipira”, ou para alguns aspectos dele. Sem nenhum saudosismo daquele também atrasado e sofrido mundo caipira. O que vale aqui é ver como é possível viver e se sustentar com pouco - ou quase nada -, refletir sobre a real necessidade de certos objetos. Quem sabe, este olhar pode ajudar a trazer de volta para o ato de projetar, criar e produzir, alguns dos seus fundamentos como a economia de meios e materiais e a síntese da poética.
E ainda, talvez esta exposição nos ajude a lembrar do território que habitamos, do singular e rico chão que pisamos, cheio de histórias, modos de vida e expressões dessa mesma vida. Lugar também de origem dos fundadores da Baraúna que, de alguma maneira, trouxeram seu conjunto de vivencias para o desenho do mobiliário.
Marcelo Ferraz
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AnônimoBanco Caipirinha, 1988L 18 x A 25 x P 21 cmR$ 718.00 -
AnônimoBanco Cachorrinho, 1990L 12 x A 20 x P 73 cmR$ 718.00 -
BaraúnaBanco Reto, 1999L 26 x A 26 x P 26 cmR$ 718.00 -
Francisco FanucciBanco Caipira, 1988L 26 x A 27 x P 26 cmR$ 718.00
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Francisco FanucciBanco Caipira Longo, 1988L 115 x A 48 x P 37 cmR$ 3,750.00 -
Francisco FanucciBanco Caipirão, 1988L 42 x A 48 x P 37 cmR$ 2,118.00 -
Francisco FanucciCadeira Filó estofada, 2001L 56 x A 81 x P 56 cm
Assento: 45 cmR$ 5,978.00 -
Francisco FanucciPoltrona Filó, 2001L 56 x A 81 x P 56 cm
Assento: 40 cmR$ 5,978.00
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Claudio CorrêaMesa de Centro Canjiquinha, 2003 -
Claudio CorrêaMesa Maracanã, 2003 -
Lina Bo BardiBanco Igreja Uberlândia, 1980 / 2023L 40 x A 65 x P 40 cm (com espaldar)
L 40 x A 50 x P 40 cm (sem espaldar)
R$ 4,268.00 -
Lina Bo Bardi, Marcelo Ferraz e Marcelo SuzukiCadeira Frei Egidio, 1987L 36 x A 84 x P 49 cm
Assento: 48 cmR$ 2,728.00
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Lina Bo BardiBanco Lareira SESC, 1982 / 2023L* 200 x A 34 x P 30 cm
* Larguras disponíveis: 200 / 240 / 280R$ 15,450.00 -
Francisco FanucciSofá PB, 19902 lugares: L 148 x A 80 x P 84 cm -
Amadeo Luciano LorenzatoSem título , 1991A 47 x L 51 cm -
Amadeo Luciano LorenzatoSem título, s.d.A 35,5 x L 46 cm
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GTO (Geraldo Teles de Oliveira)Sem título, s.d.A 60 x L 33 x P 10 cm -
Anônimo [Minas Gerais]Oratório, séc. XIX/XXA 54,5 x L 31 (63 com as portas abertas) x P 19,5 cm -
Madalena FanucciPaisagem, 2025A 24,5 x L 22,5 cmSold -
Madalena FanucciUm dia na roça, 2026A 24 x L 153 cmSold
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Alvino Ribeiro da SilvaConjunto de obras, s.d.Sold -
Agostinho de FreitasSem título, 1989A 100 x L 69 cmSold -
Antônio JuliãoSem título, s.d.A 105 x L 80 x P 60 cm -
AnônimoCadeira Marquesa, Séc. XIX
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Benedito José TobiasSem título, s.d.A 33 x L 24 cm -
José CoimbraFesta junina, s.d.A 35 x L 45 cmSold -
José CoimbraRetirantes, s.d.A 40 x L 49 cm -
José Antônio da SilvaSem título, 1950A 50 x L 70 cm
